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Especial

Eu “Nada Tenho de Meu”


Desde que comecei a ver esta maravilhosa produção que o título deste texto não me sai da cabeça. Já tentei, mais forte do que alguma vez pensaria, e não consegui. De facto, e pensando filosoficamente, o que é que realmente temos que é nosso? A nossa casa? O nosso carro? O nosso telemóvel? A nossa biblioteca? O quê? Perguntamo-nos isto, todos os dias e ainda que não saibamos que o fazemos conscientemente, o nosso cérebro não pára de procurar uma resposta a uma simples pergunta, inconscientemente. O que somos nós afinal? Um conjunto de sinapses no meio de uma mistura de tecidos e água? Ou seremos realmente pessoas, seres que partilham de emoções, que transparecem sentimentos e que fazem parte de outros, para o Mal ou para o Bem?

Nada Tenho de Meu

“Nada Tenho de Meu” absorveu-me, como eu nunca pensaria que o fizesse. Absorveu-me no sentido em que me fez questionar o que eu sou, me quer questionar que plano tenho eu para a minha vida, me fez perguntar do que é realmente sou feito. Será que sou feito de boas acções? Será que sou feito de erros? De constantes aprendizagens? De desculpas ao longo destes anos? Afinal, o que sou? “Nada Tenho de Meu” não nos promete respostas algumas a estas perguntas, porque simplesmente não as há. E se as há, nós nunca chegaremos ao patamar de as compreender porque, organicamente, somos feitos para sobreviver e não para nos conformarmos. Sim, caro leitor, porque não pensar nesta temática? Sobreviver ou conformar? Mesmo que queiramos é impossível não ter o instinto de ir até ao limite para que possamos continuar a nossa espécie. Conformar com a morte (ou com aquela entidade que nos leva para não sei onde) parece utópico. Não é algo que alguma vez queiramos atingir porque, na nossa concepção, aceitar a morte (ou qualquer outra forma de dano físico) é desistir.

E da mesma maneira que é impossível aceitar este conceito, também é impossível expormos numa folha de papel o que vai na nossa mente. Porque, eu, agora, estou-vos aqui a falar disto mas quem sabe o que vai neste preciso momento no meu subconsciente? Com certeza não será a linha que escrevi há 1 minuto. E muito menos esta que vos escrevo. O pensamento vai, certamente, a uma velocidade 5, 10 ou qualquer outro factor que lhe queira dar mais depressa que a sinapse que confere às nossas mãos o simples acto de escrever uma palavra, um texto, um livro.

“Nada Tenho de Meu” chegou, viu e venceu. Não consigo expressar a miríade de pensamentos que me iam assolando o pensamento à medida que passeava pelos 11 curtíssimos episódios desta série. E no fim, acabo a pensar que, apesar de não me ter mudado a vida, a série mudou algo em mim. Terá sido a compreensão de alguma coisa? Terá sido reinventada em mim uma capacidade de fazer perguntas? Terá reajustado a forma como escrevo, como espelho sentimentos ou opiniões?

Tu és o que fazes. Tu és uma imagem.

Imagem de quê? Imagem dos reflexos do passado? Imagem daquilo que fui e que construí para hoje ser o homem que sou? Não acho que seja uma resposta definitiva mas, no fim de tudo, nós acabamos por ser aquilo que decidimos, aquilo que vivenciados e, sobretudo, aquilo que fica guardado connosco. Talvez nunca cheguemos a conhecer o que realmente estamos cá a fazer (porque nos falta discernimento para o entender) mas enquanto cá estamos, não podemos evitar os erros, as desculpas, as aprendizagens sucessivas que a vida nos põe à nossa frente e, em nenhum momento, a vida deixa de ser injusta… Porque, reparemos, se deixou, em um momento, de ser injusta para nós é porque o está a ser para outra pessoa e, por mais que queiramos, não podemos evitar isso porque não é a nossa altura de lidar com aqueles sentimentos ou com as consequências de determinada acção. É frustrante. É, de certo modo, triste que nunca cheguemos a saber o que cá estamos a fazer. É mudar a vida de alguém? É tocar na vida de alguém? É simplesmente fazer parte do mundo? Não sei e talvez nunca saberei. Somos parte de um mundo que, a pouco e pouco, morre por nossa causa. Somos parte de um mundo que nos criou e nos moldou à sua imagem e, no fim de tudo, acabamos por ser o seu próprio veneno. Somos o nosso próprio inimigo e nunca encontraremos alguém tão esperto, tão imensamente rico que nos consiga vencer. Nós somos o nosso próprio antídoto.

Basta uma decisão e a dor acaba.

Quem somos nós para decidir o que quer que seja? Chamamos livre arbítrio à capacidade humana de decidir. Mas, será assim tão livre? Será assim tão idóneo este conceito? Até certo ponto, nunca o é. Nós, além de sermos esta mistura de tecidos e água e de sinapses, estamos cobertos de variáveis, variáveis essas baseadas no sentimento e nos outros porque, por mais que queiramos isolar-nos, é impossível dissociarmo-nos totalmente dos outros. Nós somos, para os outros, aquilo que somos para nós próprios. Decidir é só mais uma maneira de viver, é só mais uma forma de dizermos que somos independentes e que somos capazes de ultrapassar até mesmo a situação mais desgastante emocionalmente.

Ricardo Reis, de longe o meu heterónimo favorito de Fernando Pessoa, é todo ele, uma pessoa que me apaixona, que se isola da emoção mas nunca de si próprio nem dos outros. Ele está lá, mas apenas a parte racional. Apesar de tudo, será que ele alguma vez poderia aspirar a ser feliz? Será que ele, com tamanho pensamento, poderia alguma vez viver?

“Nada Tenho de Meu” não se trata de uma viagem ao Extremo Oriente. Trata-se, pois, de uma viagem ao mais íntimo de nós próprios sem nunca perdermos o fio da nossa própria existência. São os mistos de cores, a brilhante fotografia, a intensidade de cada uma destas personagens que nos absorve, que nos suga a vida como se não houvesse amanhã, que nos levam a olhar para nós próprios e a perguntar do que é que realmente sou feito. Apaixonei-me por esta série tão intensa, e hoje abro o livro e cada imagem leva-me ao mundo mítico que a série procurou criar, sem nunca sair da sua própria realidade, da nossa realidade enquanto pessoas, enquanto seres humanos pensantes, viventes, emotivos. “Nada Tenho de Meu” será, certamente, uma das grandes produções feitas para a televisão, que alguma vez tive a sorte de ver, e será, certamente, a série que mais me fez perguntar sobre mim, sobre o que vai dentro de mim e sobre o que, futuramente, quero que corra nas minhas veias. Nunca terei, realmente, algo que seja meu mas se chegar ao futuro e ainda mantiver a sanidade mental, saberei que tomei as decisões certas e soube deixar a dor passar porque talvez seja essa a grande lição que tenhamos de aprender: tomar a decisão certa e deixar a dor passar. E mesmo que seja a errada, saberemos que naquele momento o era devido a certas circunstâncias, mas no fim, será sempre a certa porque nunca fugimos de nós próprios e como a citação o diz, a dor passou e, efemeramente, felizes ficámos.

About Jorge Pontes

Viajar é nascer e morrer a todo o instante, até porque é fácil apagar as pegadas. Difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.

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