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Being Erica, Espelhos

Being Erica #17


No outro dia, alguém me dizia para eu escrever, deixar-me levar pelas palavras, pelos sentimentos, pelas frases e ideias que fustigam a minha cabeça sem me levar a lado nenhum. Custa-me a crer que algum dia já me socorri desta arma para expressar o que sentia e, agora, que parece ter aprendido a deitar tudo cá para fora, não consigo ou, simplesmente, não quero.

Já muitas vezes expressei, nestes textos que partilho convosco, que nunca fui de mudar nem nunca fui adepto da mudança porque me colocam numa situação de descontrolo total e eu, crescendo como cresci, gosto de ter todas as coisas sobre controlo. E, se há coisa que tenho vindo a aprender é que nem tudo pode ser controlado porque, em primeiro lugar, é impossível e, em segundo, mesmo que o fosse, não viveria rigorosamente nada.

O que me asseguro a mim próprio é que, desde a minha ida para Espanha, vim totalmente diferente, com uma perspectiva sobre as coisas e sobre as pessoas tão diferente que me faz lembrar alguém que eu nunca sonharia ser, no momento em que comecei a faculdade. E há quem hoje me diga e me pergunte como fui eu capaz de abraçar o que aparenta ser este novo eu que sempre reprimi. De volta a casa, uma casa que a cada dia que passa se parece menos minha, acabo por cair numa rotina tóxica para mim, isto é, o de querer controlar tudo e falhar redondamente. E junte-se a cereja no topo do bolo quando, fazendo uma retrospectiva, todos aqueles com quem partilhei vida desde a infância se encontram longe, com os seus afazeres e a sua vida, e eu, ao que parece, preso a uma coisa que não quero e que desesperadamente peço para mudar, todos os dias. E, de novo, é nestes pedidos que falho, não por incompetência, mas porque não pode ser.

No entanto, e mesmo que queira controlar tudo, deixo-me levar pela descontracção e tento sempre meter um sorriso na cara, apesar deste sentimento de vazio. E, no entanto, já houve um dia em que me sentia feliz com isto mesmo, porque não ligava. E agora ligo e parece bem mais complicado de lidar com tudo, porque são tantas emoções a quererem ter o seu protagonismo.

A minha cabeça anda a mil à hora. Às vezes nem eu sei como consigo parar para pensar direito nas coisas, tal é a velocidade e a intensidade com que ela trabalha. Talvez o que me salve de tudo isto é aquela pessoa que, apesar de não a poder ter, acaba por ser uma rede para me pôr os pés no (quase) chão e não me perder em tanta loucura. Não cura, mas ajuda. E ao menos, enquanto não tenho uma orientação concreta em termos profissionais, sempre é um motivo para saltar da cama todos os dias, olhar o sol e sentir o seu quente na minha pele e, por fim, sorrir porque estou deste lado a aproveitar um grande momento da minha vida e a evoluir, bastante, enquanto pessoa. E se poderia sentir-me triste por estas coisas, acabo por me sentir contente e feliz porque eu estou a ganhar e, quando ganho, fico cheio de força para enfrentar mais uma batalha. 

About Jorge Pontes

Viajar é nascer e morrer a todo o instante, até porque é fácil apagar as pegadas. Difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.

Discussion

2 thoughts on “Being Erica #17

  1. Boas Jorge. Há uns tempos que passo por aqui – vindo do facebook -, por acaso nunca tinha comentado, mas achei este texto tão porreiro que tive de o fazer.

    Não te conheço pessoalmente mas por acaso identifico-me com muito daquilo que escreves neste post – Não é essa a piada da net?!
    Mais especificamente em relação a como te sentes em relação à mudança e ao querer controlar tudo o que te rodeia… revejo-me a 100% naquele segundo parágrafo. Sabemos que só crescemos ao sair da zona de conforto, e, no entanto, isso custa tanto. Tal como custou fazer com que esta zona, em que agora nos encontramos, fosse de conforto, quando também ela já foi tão desconfortável. Mas a vida é um bocado isso, e alguém que queira algo dela acaba sempre por ter de sair do marasmo e da “rotina tóxica” em que se encontra.
    Acredito que o Erasmus seja uma experiência capaz de transformar muito uma pessoa, ou pelo menos dar novas perspectivas ao nosso mundinho pessoal, sempre programado, sempre controlado. Nunca tive a oportunidade (ou, para ser sincero, o desejo) de fazer… mas agora que olho para trás, arrependo-me um bocado por não ter arriscado.

    Acho que em relação ao querer controlar as coisas e à cabeça que anda a mil à hora, eu pelo menos já percebi que não é algo que queira combater em relação à minha personalidade e que também não devias reprimir na tua. É bom estarmos “alerta” e em cima do acontecimento quando existem por aí tantas pessoas que simplesmente “se arrastam”, meio que apáticas a tudo e a todos, dispostas a serem levadas ao sabor do vento e do mundo que as rodeia. Provavelmente nunca vamos ter a postura mais relaxada e optimista em relação à vida, porque somos pessoas preocupadas com o Amanhã que não desfrutam o Hoje tanto quanto deviam, mas é como dizes… “um sorriso na cara”, aproveitar dentro do possível com os amigos e a família, ver umas séries e continuar a estudar/trabalhar para que todo o esforço que está para trás tenha valido a pena.

    Parabéns pelo texto, nota-se que gostas de escrever e o fazes bastante bem.
    Abraço😉

    Posted by Igor Ramos | March 18, 2014, 11:56 AM
    • Boas Igor!🙂
      Muito obrigado pelo teu comentário, de verdade. Consigo entender que, afinal, tenho mais uma pessoa que pensa/age de maneira semelhante à minha. Eu sou muito sincero… eu sempre fui muito averso à mudança mas acabei por começar a abraçá-la, a pouco e pouco. E admito que eu não tinha sequer desejo de ir de Erasmus. Falaram-me nisso e eu, que nunca tinha pensado, acabei por ir entendendo que era a melhor coisa que fazia, mas se não tivesse tido a força externa provavelmente nunca tinha ido e hoje estava no mesmo patamar que estava antes de ir.

      E concordo contigo quando referes que somos pessoas que provavelmente não teremos a postura mais relaxada do mundo, porque nos preocupamos com o Amanhã e que não desfrutam o Hoje. Eu acabo por ser muito assim. É preocupante, sabes? Quando uma pessoa vive na ânsia do que se vai passar, preocupado com tudo o que ainda está para acontecer. No entanto, é como te digo, a mudança, ainda que custe, acaba por ser boa porque acabas por perder um pouco estes conceitos tão bruscos e tão definidos na tua cabeça. E às vezes, é só mesmo uma questão de nos deixar levar para ver até onde a coisa nos vai levar. Quem sabe!

      Acredito que tudo o que faças de bom é-te devolvido a dobrar. Não digo que se seja o certinho, porque também temos de errar, mas às vezes mostramos mais em sorrir do que em chorar e observar todos aqueles que nos querem, indirectamente, deitar abaixo e a não conseguirem, acaba por ser uma satisfação e a concretização de uma força que tu nem sabias que tinhas. A vida é mesmo assim… Todos os dias acontece algo diferente, conheces uma pessoa diferente e até lês uma coisa diferente e, sem saberes, moldas-te.

      Mais uma vez, muito obrigado pela tua partilha e pelo elogio. Gostei muito de saber a tua opinião e a tua perspectiva.🙂
      Um grande abraço😉

      Posted by Jorge Pontes | March 18, 2014, 2:19 PM

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