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Especial, Odisseia

A Minha Própria Calypso


O caríssimo leitor já ouviu, com certeza, uma expressão, usada como contra-argumento, quando alguém diz que ninguém sai desta vida virgem. “A vida lixa-nos a todos”, para não entrar em brejeirices, leva-nos a pensar na autêntica montanha-russa que a nossa existência vive; não cabe a nós saber o tempo que dura cada viagem, visto que tantas são as variáveis que não somos capazes de quantificar o tempo ou mesmo até prever as consequências.

Odisseia (3)

No início deste ano, a RTP apresentou um projecto da autoria de Bruno Nogueira que nos levou (e ainda leva) a reflectir sobre as efemérides da vida e no quão diferentes somos dentro da nossa espécie. Quase que cada um de nós é uma sub-espécie diferente, tal é a diversidade cultural, mental e física. Tendo-nos já agraciado com a sua criatividade em “Último a Sair”, que há uns tempos foi reemitido na RTP2, tendo sido um dos programas do ano, “Odisseia” vinha com uma carga elevada às suas costas ainda que fosse um produto completamente diferente. Chamo-lhe “completamente diferente” porque, deixando de parte toda uma comédia que, a outros olhos, pode ser exagerada, tem, bem lá no fundo, um objectivo: conseguir dar resposta à pergunta que desde o início dos tempos tem feito as delícias dos filósofos – “Para onde vamos?”.

A série, além do maravilhoso monólogo, abre com Bruno Nogueira a interpretar-se a si próprio a sofrer de algo que o manda directamente para o hospital. Ora, tendo em conta que teríamos mais 12 episódios em que exploraríamos a sua personalidade e tentaríamos entender o porquê de aquilo ter acontecer, nada faria prever que essa situação motivasse uma fuga a bordo de uma caravana, de nome Calypso, numa procura sobre um significado para a vida, um significado além desta existência corporal para aquilo que estamos cá a fazer.

O que é certo é que ao sétimo episódio, os próprios argumentistas que, curiosamente, eram os dois actores principais a interpretarem-se a eles próprios, decidem cancelar a série e tentar produzir um oitavo episódio que rematasse (ou tentasse rematar) as pontas soltas que nos foram sendo deixadas ao longo dos episódios. Contudo, tal não aconteceu mas não deixa de haver um sentimento de conclusão com aquele oitavo episódio ou senão isto não viria daquela mente brilhante que não só deu vida a esta série como à reemitida este Verão na RTP2.

Tal como esta série, a vida é feita de surpresas e de momentos espontâneos onde tudo tem a sua validade e onde tudo pode acontecer. Provavelmente, não nos caberia saber o que tinha ocorrido ao Bruno no primeiro episódio mas, talvez o mais importante, fosse ver o que o motivou a evadir-se por essa estrada fora e a contactar com as personagens mais loucas (mas válidas nos dias de hoje, desde a louca Rita Blanco, até ao grupo que os obrigou a jogar à roleta russa, sem esquecer o enforcado nem o homem que fazia uso das letras do António Variações para mostrar o seu culto e o seu ponto de vista) e a tentar encontrar, em cada uma delas, o que os fazia ser assim, o que os fazia ver as situações à sua maneira e, acima de tudo, a explorar novas perspectivas de como viver e interpretar a vida.

Odisseia (2)

Da mesma maneira que poderiam haver mais n personagens ao longo do caminho que Bruno e Gonçalo percorreram, também eles, assim que vissem o sinal que indicava o caminho de volta a Lisboa eles voltariam a casa, satisfeitos com a viagem. Mas tal não aconteceu porque tal como a felicidade, também a vida é cheia de dúvidas e de curvas e de contra-curvas. Não há necessidade de apressar o que tem de ser esperado, da mesma maneira que não se pode sofrer por algo que ainda não aconteceu pois pode nem sequer vir a acontecer.

Muitas vezes, quando a nossa auto-estima não é das melhores, temos a tendência a culpar ou a vida ou a divindade em que acreditamos pela desgraça que estamos a passar quando tudo não passou de decisões por nós tomadas que nos levaram àquele ponto. Decisões essas que foram tomadas devido a certas circunstâncias que cada um se reserva a ter e o outro só tem de as respeitar se o quiser aceitar na sua vida.

Odisseia (1)

Todos nós temos uma Calypso na nossa vida. Qualquer que seja o nome ou a descrição que lhe demos, a nossa caravana não pára nunca por mais sinais de STOP ou proibidos que tenhamos. Somos tentados a ultrapassá-los, somos puxados até ao limite e deixamo-nos puxar porque sabemos até onde podemos ir. Somos tentados a fazer coisas más e coisas boas. Somos tentados a tanta coisa que alguma vez poderíamos dizer que não vivemos, porque o fizémos. Tomámos decisões, aceitámos os erros e a consequências. Resta a capacidade de saber usar isso em nossa prole para avançarmos e voltarmos ao nosso local de origem, ao nosso espaço interior de paz. Por entre as estradas da vida, encontraremos as personagens que Bruno e Gonçalo encontraram na estrada, e muito provavelmente, umas mais que as outras e até outras que nem chegámos a ver.

Qualquer que seja o motivo que nos leve ao limite, procuremos o bom disso mesmo. Procuremos evadir-nos, ainda que em espírito, porque não é só o corpo que tem de viver. A alma também o tem de fazer para se sentir livre. E é nesse mesmo sentimento de liberdade, nesse sentimento efémero de viver, que está a felicidade. Ela não se mede aos palmos mas, sim, em momentos. Resta saber é se somos maduros o suficiente para os viver sem pensar e resta saber se somos as crianças de outrora que vêm a ingenuidade e a beleza nas coisas mais pequenas.

About Jorge Pontes

Viajar é nascer e morrer a todo o instante, até porque é fácil apagar as pegadas. Difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.

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