//
you're reading...
Espaço, Projecção Jornalística

Projecção Jornalística #2 – Quando A Hora chega ao fim


PROJECÇÃO-JORNALÍSTICA2

Sei que a minha escolha para este título não foi muito feliz: afinal de contas, acabei de traduzir literalmente o nome de uma série. Mas, pondo esse pormenor de parte, comecemos então a perceber do que é que vou para aqui falar.

The Hour, como já devem ter percebido pelo parágrafo anterior, é a série sobre a qual vos quero contar. Uma série sobre jornalismo, como aliás não podia deixar de o ser. Esta é só a melhor série sobre o assunto que há desde que eu me lembro de querer ser um profissional desta área. Sobre o que trata? Bem, “The Hour” é uma série sobre jornalismo de investigação da televisão pública britânica, a BBC, em 1956 – altura em que se deu a crise no Canal de Suez e em que a Inglaterra, a França e Israel entraram em guerra com o Egipto.

Agora, imaginem o que é uma guerra prestes a rebentar, uma televisão pública a ser chantageada a torto e a direito, com fugas de informação que não deveriam sair do seio de onde vêm, e jornalistas a serem alvo de ameaças. Pois bem, isto é “The Hour”.

Esta é aquela série onde há um clube restrito de pessoas a querer transformar o jornalismo e acabar com os lobbies governamentais. Ora, claro que há quem pressione para evitar que o jornalista x faça uma peça sobre o assunto y, por ser perigoso para muitas pessoas – e por muitas pessoas eu quero dizer um ou dois tipos com bastante poder no Governo.

E depois há o Freddie. Quem é o miúdo? É um aspirante a jornalista – que acaba mesmo por se “transformar” num jornalista – que não fica satisfeito quando começa a investigar e a descobrir que o mundo é mais mesquinho do que imaginava. Pior do que isso, e agora dou um salto até ao final da segunda temporada, é espancado e deixado à beira da morte depois de denunciar uma conspiração que envolvia não só o dono de uma casa de…meninas, onde vai toda a gente que é “gente”, mas também altas patentes na polícia e altos responsáveis do Governo.

Ora, isto, para o espectador comum, mais não é do que uma série normal. Mas para mim, que gosto de aprender todos os dias mais sobre o que é ser um jornalista, é mais do que uma “normalidade”. É ter mais uma voz a dizer-me como isto é difícil, como há quem nos possa controlar em todo o lado e como qualquer linha que eu tente cruzar possa ser prejudicial para mim.

Bem podia tentar acreditar que não, que o jornalismo no nosso país “livre e democrático” é, na realidade um jornalismo “livre e democrático”. Mas infelizmente não. Ainda que até agora não o tenha sentido, não é difícil entender que há pressões em todo o lado e que há riscos a correr caso não se satisfaça essas pressões. Dou-vos um pequeno exemplo: conheço quem trabalhe num pequeno jornal regional, semanário, e que recebe “ameaças” dos leitores locais, que dizem que deixam de comprar o jornal – o que seria insuportável e que obrigaria ao seu fecho – caso os jornalistas não dêem atenção a tema x ou y.

Ora, claro que este é um daqueles assuntos tabu lá na zona e que não tem grande expressão para a vida do português comum, mas o que é certo é que este é apenas um exemplo de um mundo que existe sem que nós o conheçamos.

“The Hour” retrata esse mundo de uma forma espectacular. Percebe-se exactamente de onde é que vêm as pressões e como é que elas são exercidas. Isso leva-me a pensar “então mas como é que será que isso acontece cá?”

Neste momento, eu estaria à espera que começassem a sair os episódios da terceira temporada, mas não estou. E não estou porque a BBC decidiu cancelar a série, o que significa que o máximo que posso fazer é rever os 12 episódios que foram feitos nas duas temporadas que foram produzidas.

Já vos dei o final da série, portanto, mas é um final que me deixou com água na boca: afinal de contas, o que é que aconteceu ao Freddie Lyon? Morreu? Não morreu? E o que é que ele sussurrou à Bel? Quando a hora chega ao fim, ficamos com perguntas sem resposta, num mundo em que também o jornalismo está entre a espada e a parede.

About Pedro Nunes Rodrigues

Assessor de imprensa/consultor de comunicação. Membro do LIVRE. Odeio erros ortográficos. Ex-estagiário do PÚBLICO. Consumidor ávido de séries. Cinéfilo quando o tempo o permite. Leitor semi-compulsivo.

Discussion

3 thoughts on “Projecção Jornalística #2 – Quando A Hora chega ao fim

  1. Já ouvi aí zumzuns de que a BBC poderá fazer um filme para concluir a história da série…🙂

    Posted by Jorge Pontes | May 17, 2013, 6:51 PM
  2. Renovar o jornalismo de TV, ousar, enlouquecer a concorrência, incomodar poderosos, remar na contracorrente. Essas são as intenções de um telejornal fictício, base da trama do seriado americano The Newsroom, sensação nos EUA, agora na TV a cabo do Brasil. Criação de Aaron Sorkin, o mesmo da série The West Wing e do filme A Rede Social, The Newsroom não deixa ninguém indiferente. É cultuado com intensidade, e odiado também. Para jornalistas, assisti-lo vira hábito compulsivo (ainda mais para os de TV, meu caso).

    Posted by Maritza Benjamin | May 18, 2013, 4:13 AM

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Biblioteca

Calendário

May 2013
S M T W T F S
« Apr   Jun »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  
%d bloggers like this: