//
you're reading...
A Ficção de Língua Inglesa Mais Bem Cotada do IMDb, The Sopranos

7ºLugar: “The Sopranos” (HBO, 1999)


InFLIMBQI

Uns Mafiosos Muito Humanos, por Ricardo Raposo

[SEM SPOILERS] Permitam-me a presunção de assumir que pelo título já descobriram sobre que série se debruçará as próximas linhas: “The Sopranos”. Uma série que narra a vida de um chefe da máfia, residente em New Jersey e com problemas familiares, profissionais e psicológicos. Uma série criada por David Chase, imortalizada por James Gandolfini – numa das grandes personagens do pequeno ecrã – e aclamada pelo público e pela crítica durante as suas 6 temporadas exibidas pela “HBO”.

Feitas as apresentações cabe-me agora a honra de falar sobre “The Sopranos”. Mas o que dizer? O que é que a torna tão especial? Numa série tão rica em termos de produção, onde cada diálogo e cada cena de ação é tema para uma tese de mestrado é difícil escolher por onde começar. É impossível decidir onde focar as atenções. Mas é extremamente aliciante tentar transmitir nem que seja 1% daquilo que retive com a sua visualização.

Uma das caraterísticas que mais me agradou na série da “HBO” foi a sua maturidade. A forma como narra os seus acontecimentos com naturalidade mas inteligentemente. Não explica tudo o que acontece, não fala apenas sobre assuntos triviais e não coloca os seus personagens em modo piloto automático. Ou seja, nunca se sabe bem para onde eles irão, qual será a sua reação. E isso leva a que a audiência da série pense. Há que pensar sobre o porquê de Tony Soprano fazer ação “x” ou “y”. Debater sobre isso, concordar com ele ou desafiarmos o nosso intelecto por torcermos por alguém tão besta. “The Sopranos” faz mexer a massa cinzenta de cada um, quer seja na trivialidade de tentar deduzir quem morrerá a seguir ou na interpretação psicológica dos sonhos do protagonista. É preciso estofo para acompanhar esta série, é preciso paciência e investimento. Ver isto sem atenção é como comprar um perfume sem olfato. Cada pormenor conta, e mesmo nos episódios em que parece que nada aconteceu – e são muitos em que se fica com esta sensação – quando se pensa bem sobre os pormenores e sobre o que foi dito compreende-se a sua importância. Esta série foi das que exigiu um maior compromisso da minha parte mas eu agradeço-lhe por não me tratar por burro.

Ora numa série que exige tanto a quem a assiste como é possível garantir essa mesma assistência? Acredito que muito se deveu à capacidade de agradar a Gregos e a Troianos. Passo a explicar, por um lado assistiam aos episódios aqueles que queriam ver as mortes, os esquemas da máfia e a constante luta pelo poder. Quem não estava sempre ansioso pelo próximo ataque de raiva de Tony? É uma imagem de marca da série da “HBO” as cenas de ação, o sangue e a violência. Isto abordava uma família de mafiosos e esse lado foi retratado de forma exímia e empolgante. Por outro lado toda a vertente psicológica e profundidade dada às personagens – principalmente a Tony Soprano – apelavam àqueles que procuravam a análise detalhada e o desenvolvimento dos seres que seguiam semana após semana. Era sim uma série sobre máfia, mas abordava o lado familiar desses indivíduos, tornando-os relacionáveis. Ver Tony Soprano a ter que agradar à mulher (farta mas acomodada), a procurar aceitar os namoros da filha, a ter que criar um filho mimado e sem vontade de fazer seja o que for ou ainda a tentar convencer a sua mãe a mudar-se para um lar mantendo uma relação de amor/ódio com ela faz com que – excluindo as suas formas de ganhar dinheiro – este homem seja um pouco daquilo que nós somos. À parte da sua profissão ele tem problemas do quotidiano, ele é um chefe de família que sofre de dores de cabeça e ganha cabelos brancos dia após dia por não saber lidar com a causa dessas dores de cabeça. Quem via pela ação aguentava com suspiros os diálogos e episódios de ritmo lento, quem assistia pela profundidade das personagens arrepiava-se com a violência. E quem assistia pelo seu todo saciava-se durante 60 minutos, obtendo o êxtase do que a televisão tem para oferecer.

Só é possível conjugar duas realidades – Mafioso vs Homem comum – aparentemente tão distintas de forma harmoniosa se se definir exatamente aquilo que a série pretende ser. E aqui “The Sopranos”, mais uma vez, revelou toda a sua maturidade ao apresentar um primeiro episódio esclarecedor daquilo que seria exposto nos seus 6 anos de existência. Começa-se com Tony Soprano num gabinete de psicologia. O foco é no seu ser, naquilo que o move, naquilo que o fez ficar assim. Facilmente se percebe que estamos perante um Homem cheio de falhas, um ignorante, um ser mau. Mas é aqui, neste consultório, que a cada episódio, a cada temporada vamos compreendendo o porquê de ele ser assim. Quais os seus medos, quais as suas razões. Isso justifica de alguma forma o que ele faz da vida? Não! Mas esta análise do seu intelecto é o que eleva a série ao patamar de excelência, tornando-a em algo mais do que uma história de mafiosos. Só assim, com tamanha profundidade, é possível sentir cada cena de ação, cada ato de violência. E não duvidem, eles existem em larga escala. Uma vez mais, logo no seu piloto, existe um destes momentos violentos. Um ataque de fúria de Tony para o espetador ter plena noção do que poderá encontrar daqui para a frente. Violência sim, mas nunca potenciada por seres vazios.

The Sopranos

Grande parte das personagens de “The Sopranos” são seres desprezáveis. São todos uns egoístas cuja máxima assenta no primeiro eu, depois eu, depois outra vez eu e só depois os outros. São um bando de hipócritas com largos traços de racismo e xenofobia. Maltratam as mulheres e dão porrada a quem lhes apetece. São os vilões de qualquer filme de final feliz, mas aqui são também os protagonistas. Aqueles sobre quem é suposto torcer. Isto para resultar – para além da componente humana descrita em parágrafos anteriores – tem de ser feito de forma verdadeiramente real. Não se pode colocar um personagem a matar agora alguém e de seguida mostrar misericórdia para com outro indivíduo por ser amigo ou conhecido. Não! Uma vez mau, sempre mau. O cuidado para não desconfigurar aquilo que são as personagens é único. São diversas as ocasiões em que as personagens se vêm perante a hipótese de fazer o que é socialmente ou moralmente correto, mas acaba por pesar aquilo que eles são e a escolha recaí sobre a saída fácil. O ato vil. Não se pense com isto que as personagens se encontram estagnadas durante todas as temporadas, nada disso. Elas vivem, pensam e adquirem conhecimentos. Mas naquele ambiente não há espaço para ser bonzinho, por mais que custe a “a” ou “b” a decisão acaba por ser sempre a mesma. Isso torna a série real e verdadeira e só assim é possível acreditar naquilo que os personagens falam, e naquilo que está a ser narrado. De que valia eles dizerem que eram maus, capazes de matar tudo e todos se na hora da ação não o fizessem? Ora para não chocar a audiência? Ou para que todos se redimissem? Isso não seria coerente. Seria ser hipócrita. E felizmente não acontece. A série da “HBO” deixou claro logo desde os seus primeiros episódios quem eram estes seres, pondo mesmo o seu protagonista a sujar as mãos ao fim de poucos episódios. Do início ao fim, uma serie centrada em personagens cheios de falhas, que não procuram a redenção, nem tão pouco a aceitação. Procuram sobreviver, mantendo a sua profissão ilegal, fazendo tudo o que ela exige. Uma série que vive dos seus personagens e que respeita as falhas que os movem.

Visto que este texto possui já muitas linhas e todas elas de aspetos positivos, deixo agora um parágrafo com alguns pontos menos conseguidos em “The Sopranos”. Uma das coisas que me incomodou até às temporadas finais foi o elevado número de personagens. Sempre que se tem um elenco tão vasto é impossível dar o mesmo nível de desenvolvimento a todos eles. Aqui isso foi muitas vezes incomodativo, pois sentia-se que algumas personagens (quer pela interpretação ou pelo peso na organização mafiosa) tinham bem mais para dar, mas o seu tempo de antena era extremamente reduzido. Ainda assim, sempre que chamados a intervir faziam valer todos os segundos ao ponto de muita gente que assistia à série tê-los como favoritos mesmo sem saber muito sobre eles (sim Bobby e Silvio – das primeiras temporadas – esta foi para vocês). Outra situação que me incomodou algumas vezes foi a indefinição de arcos narrativos a longo prazo. Por vezes não se sabia bem para onde caminhava a história, qual era o rumo. Iriam eles atacar Nova Iorque, ou passear pela neve com Russos? Durante as temporadas existiram inúmeros episódios de histórias individuais muito fortes mas que pareciam isoladas do grande enredo. Como se não bastasse, aquilo que parecia ser o enredo principal invariavelmente acabava por não o ser. Ou seja, as temporadas são construídas na preparação de um acontecimento “x” e no final opta-se pelo “y”. Gera surpresa é certo, mas gerou também muito debate e alguma contestação. Mas mais uma vez o que prevaleceu, nestes momentos, foi a realidade, pois quantas vezes não esperamos impacientemente por algo e quando ele chega não só não causa o impacto que pensámos como surge de maneira totalmente diferente. Ainda hoje, muitos fãs se queixam de algumas histórias terem sido pouco conclusivas e apesar de eu não ser dos que se sentiu afetado por isso, concordo que não foi um dos pontos mais fortes da série.

Por falar em discordância é momento de abordar o final – sem spoilers. Para muitos a conclusão desta série é considerada o pior momento de todas as 6 temporadas. Para outros foi algo perfeito. Eu adorei o final, primeiro porque todos os enredos foram atados. Não ficaram ali grandes pontas soltas no que à narrativa diz respeito. Aliás toda a última temporada serviu para isso mesmo, para finalizar histórias e proporcionar um fim às mais enigmáticas personagens. Até aqui não parece existir grande discordância, o que incomoda mais os fãs foram os minutos finais. A última cena. Para uns aconteceu “x”, para outros foi “y”. Uns adoram poder interpretar à sua maneira e escolher o fim que querem. Outros queriam a certeza do significado deste último momento. No início deste texto eu disse que uma das coisas que mais gostava na série era a capacidade de nos fazer pensar. Ora o que a série fez nestes últimos momentos foi ser ela própria, foi deixar o espetador a pensar. Gostando-se ou não, foi um final que não invalida de maneira nenhuma as 6 excelentes temporadas e que não põe em causa nada do que foi feito, nem tão pouco deve figurar na lista de séries com final inconclusivo. É um acontecimento isolado, que funciona como que um epílogo capaz de se prolongar à mente de quem assiste.

Resta-me agradecer ao Jorge Pontes pelo convite para escrever sobre “The Sopranos”, apelar a quem não viu para a espreitar e espero ter feito jus a esta grande série. Para o caso do texto não agradar a todos, ao menos que agrade a alguns até porque como diria o Tony Soprano: “Even a broken clock is right twice a day.”.

About Convidado

Porque eu também tenho algo a dizer.

Discussion

Trackbacks/Pingbacks

  1. Pingback: “The Sopranos” – Uns Mafiosos muito Humanos | TVDependente - October 15, 2013

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Biblioteca

Calendário

March 2013
S M T W T F S
« Feb   Apr »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  
%d bloggers like this: