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American Horror Story, Especial

A Psicologia de “American Horror Story: Asylum”


AHS - Asylum (3)

Sister Jude: “If you look in the face of evil, evil’s going to look right back at you”.

O terror, para mim, não se trata de fantasmas que fazem “Buh!” ou vampiros e lobisomens ou mesmo até o empilhar de cadáveres numa sala escura e cinzenta entregue aos bolores, bactérias e outros pequenos seres que se encarregam da decomposição. Terror, na minha concepção da palavra, é pegar naquilo que todos nós temos como garantido e retorcê-lo e fazer-nos sentir sozinhos, desprezados, sem “vontade de viver” quando tal nos é arrancado da nossa cabeça, do nosso imaginário de vida. Em suma, jogar com o meu psicológico, com a minha capacidade de pensar.

“American Horror Story”, desde que a sua primeira temporada foi para o ar, há dois anos, consegue o que é difícil em televisão: criar uma história cativante, cheia de pequenos detalhes, e que acima de tudo seja de terror, um género que, tal como a ficção científica, se tem vindo a perder para dar lugar aos tão estrondosos “CSI”, “NCIS” e todas as respectivas derivantes. E talvez a qualidade que mais define esta série seja a sua capacidade de nunca fechar um ciclo sem dar todas as respostas e atar todos os nós.

Pois bem, este segundo ano da série misturou todas as boas qualidades da primeira temporada – a irreverência, o mistério, o terror – com a polémica da religião e das nossas limitações enquanto espécie. De facto, desde o primeiro minuto em que a série se propôs a contar a história de uma instituição psiquiátrica ligada à religião Cristã, colocou-me de pé atrás no sentido em que podia daí advir algo excelente ou algo péssimo como aconteceu com a sexta temporada de Dexter. Foi precisamente no segundo episódio, que a série se mostrou realmente e mostrou todo o potencial desta sua nova história. E não posso esquecer do genérico que, logo à partida, não só causa alguma inquietação como a imagem final da santa a sorrir malevolamente, me deixou arrepiado. Foi, exactamente, nesta dualidade entre o Bem e o Mal, entre o Deus que sempre conhecemos como alguém superior que nos protege e o Diabo que a nós sempre nos ensinaram a odiar e entre a sanidade mental e a completa loucura, que esta história (de sucesso) se desenvolveu.

Em todas as personagens que nos foram apresentadas, não houve nenhuma que, de certa forma, não tocasse o espectador. Desde a Lana Winters, interpretada pela belíssima Sarah Paulson, que representa a ambição e o dinheiro, até à Sister Jude, interpretada pela espectacular Jessica Lange, que é, num minuto, um símbolo de opressão para passar no outro a ser a oprimida, e a um Kit Walker, brilhantemente interpretado por Evan Peters, que acaba por ser a balança e o refúgio moral desta história, “American Horror Story: Asylum” coloca todos os personagens (e a nós próprios) em situações que nos fazem questionar os nossos valores morais, e aquilo a que estamos dispostos a fazer não só para obter o perdão Divino como para conseguirmos aquilo que sempre desejámos na vida.

Foi, igualmente, nas personagens que nos iam sendo apresentadas ao longo da semana, das quais a dona de casa que afirmava veemente ser Anne Frank, ou mesmo até aquele homem que, em dia de Natal, se transformava no pior dos assassinos, a série pegou nas personagens que fazem parte da nossa cultura e revirou-as do avesso e transformou-as no nosso pior pesadelo e perguntou-nos, a cada minuto, como é que agiríamos se as tivéssemos à nossa frente. 

E, da mesma forma, toda a história dos aliens, figuras (do imaginário?) que nós, humanos, nunca vimos realmente, e esquecendo todas as representações que criámos ao longo de todos estes anos (relembro a série “V”, em 1983, produzida e exibida pela NBC, e o seu remake, em 2009, apresentado pela ABC), esta parte da narrativa representa o desconhecido, representa todo o medo que sentimos quando experimentamos algo sem qualquer explicação racional ou empírica, representa a parte de nós que procura uma resposta sem a ter, que procura a paz no caos. E, tal como a religião, os aliens acabam por ser a explicação para o inexplicável, e conferem uma certa paz, ainda que efémera, a uma alma que, todos os dias, se pergunta qual o sentido da vida ou mesmo até qual o nosso papel neste planeta a que chamamos Terra.

AHS - Asylum (1)

E, mais ainda, muitos outros personagens, e do qual a Sister Jude se destaca, representam a nossa própria redenção, a procura de uma desculpa para nos sossegar a alma por algo que fizémos de errado. No fundo, a busca por uma segunda oportunidade num mundo tão preocupado com a imagem, com o dinheiro, com os jogos políticos e “obrigado” a manter toda a população ignorante face à raiz dos problemas que tornam a nossa vida e o nosso respirar, impossíveis de suportar.

“American Horror Story: Asylum” conseguiu, neste seu segundo ano, criar uma série de temas controversos e polémicos mas nunca dando a entender que o eram. Escondeu-os dentro das personagens que odiámos ou que adorámos. E o final, intitulado “Madness Ends”, é, provavelmente, antitético. Afinal, para nós a loucura pode ter terminado mas não nos deixa mais contentes ou menos inquietos; incita-nos a pensar sobre o verdadeiro valor das coisas, a nossa tão frágil condição humana e até onde estamos dispostos a levar a nossa sanidade mental e se até vale a pena perdê-la para no fim obtermos os tão desejados prémios do nosso esforço.

Foi com “Madness Ends”, o final da temporada, que aquele anjo da morte, Shachath, interpretado pela maravilhosa Frances Conroy, nos dá um beijo. Mas não um beijo para nos levar daqui para outro mundo ou qualquer que seja o sítio para onde vamos após o fecho, para sempre, dos nossos olhos. Um beijo que eu espero que nos toque de maneira tão intensa quanto tocou o Diabo naquela freira imaculada cuja perspectiva de vida mudou radicalmente devido a essa mesma possessão… talvez precisemos de deixar de ser tão inocentes (como ela o deixou de ser), talvez precisemos de recriar muitos dos nossos ideais e adaptarmo-nos a um novo mundo, a uma nova mentalidade, a um novo ser. E é neste ponto que reside toda a psicologia deste segundo ano da série: teremos nós a capacidade de mudar os outros e a nós próprios e revelar todos os Diabos deste mundo? Teremos nós a capacidade de nos alterar e de nos moldar consoante as exigências deste novo século? Afinal, a história pode-se ter passado na década de 60 mas não duvido que a mesma seja cópia a papel vegetal de uma sociedade que, a cada dia que passa, se torna mais podre, mais negra e mais impotente por algo que não consegue combater: a ignorância e a falta de pensamento humanos. 

About Jorge Pontes

Viajar é nascer e morrer a todo o instante, até porque é fácil apagar as pegadas. Difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.

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