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Azimute, Breaking Bad

Mundo Audiovisual #3 – Series Addicts


Na semana passada, dei por mim com os olhos colados ao segmento de documentários da RTP2, aos sábados depois do jantar, onde se falava desse grande vício que é ver séries. O leitor, que acompanha todos os dias, muitos dos textos que por aqui são publicados, tem, cada vez mais, a percepção de que as séries, com maior peso para aquelas que vêm dos Estados Unidos, têm uma importância cada vez maior na nossa vida. E digo “nossa” porque tal como na sua, a minha está cheia de pequenos momentos em que, sozinho ou acompanhado, espreito o novo episódio e convivo com um mundo totalmente novo e diferente do meu.

Fazer uma série é, claramente, muito complicado. Todo o budget envolvido, toda a equipa criativa e mesmo até as ideias para criar um produto de sucesso são, muitas vezes, escassas. Só aquelas em que há uma perspectiva de futuro, realmente obtêm a luz verde para serem exibidas ao passo que, outras ideias, ou permanecem por águas de bacalhau ou necessitam de ser trabalhadas, com um pouco mais de afinco, porque o potencial ainda não está todo descoberto.

Muitos foram os testemunhos de pessoas que, de uma maneira ou de outra, possuem uma vida dependente das séries. Ver um episódio ao pequeno-almoço, outro ao almoço e uns três ou quatro após o jantar é um luxo a que muitos não têm acesso e, muitas vezes, esses são capazes de, num fim de semana, recuperar esta ou aquela temporada do novo hit da televisão.

O ser humano é um ser de rotina. Gosta de ter o controlo sobre tudo (e sobre todos) para que a sua vida possa parecer o mais normal possível, sem grandes expectativas. No entanto, o ambiente em nosso redor altera a nossa percepção, altera a nossa capacidade de pensar, de esperar pelas coisas, de interpretar. E as séries não são mais do que uma interpretação (válida) de alguém sobre um assunto que, para muitos de nós, não teria qualquer interesse. Aquelas personagens, cujo o mundo alguma vez ansiámos visitar, têm uma vida passada e uma vida no tempo presente (e, porventura, uma vida no tempo futuro – coisa que só pode aparecer na cabeça do criador) e somos como que “obrigados” a viver a vida de outrem. E não são, claramente, todas as vidas das N séries que existem que nos cativam. Há estilos próprios, há atitudes próprias com as quais nos identificamos e esperamos, algum dia, ser capazes de as tomar e de as entender.

Ver séries não é meramente um exercício de entretenimento onde nos deitamos no sofá ou na cama. Há sempre algo por trás, uma mensagem que aquele criador quer fazer passar para o espectador. Seja pela busca de um tempo perdido (“Six Feet Under”), seja pelas mudanças radicais de uma vida, que nos obrigam a repensar todo o nosso jogo (“Breaking Bad”) ou mesmo até dar a conhecer um mundo negro e cru sedento de sangue (“The Shield”, “The Wire”, “The Sopranos”), tudo isto são mundos e mensagens que o viciado em séries quer ver e que necessita de ver. São tudo locais e pessoas e momentos e twists que são diferentes da sua vida, que o fazem escapar desta vida rotineira e que o abraçam, tal como uma mãe abraça um filho, como que para dar conforto e alegria a uma vida, muitas vezes, cinzenta e cheia de pressão.

Venha de onde vier, a série compila diversas personagens e uma história em comum. O espectador cresce com a série, evolui com ela e descobre as suas potencialidades. A cada episódio, a expectativa aumenta sobre o desenrolar de uma situação e a loucura começa. Loucura por saber o que se vai passar, pelos 30 s das promoções, pelos sneak peeks, enfim. E o vício cresce à medida que mais e mais séries entram na nossa vida e as vamos seriando pela mais ou menos favorita e quando damos por nós, acompanhamos 10 a 20 histórias por semana, cada uma diferente da outra, mas que acompanhamos sem nunca as confundir. Somos feitos para vícios, para seguir muitas histórias ao mesmo tempo mas a viver uma e única vez. Mais que os filmes, são aquelas tantas horas de séries que nos levam a experimentar viver mais que uma vez, mais que uma vida, mais do que uma pessoa e de sentir todas as emoções que o outro sente como se fosse real, como se fosse connosco. É, talvez, das experiências que menos arrependo nesta minha vida – a de entender as séries, de as criticar, de as levar a sério como produtos e histórias de vida que são. São o meu escape, a minha maneira de ver o mundo com outra perspectiva porque no fim, apesar de muitos acharem que não, os viciados acabam por ganhar algo, mais não seja, 20 a 40 minutos de sorrisos, de novas atitudes, de novas perspectivas. E se isso se conseguir, então o trabalho da mente que está por detrás da série, está feito.

About Jorge Pontes

Viajar é nascer e morrer a todo o instante, até porque é fácil apagar as pegadas. Difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.

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