//
you're reading...
Azimute

Planeta Vivo #1 – Chernobyl, a Natural History


A Humanidade está cheia de pequenos incidentes que modularam a sociedade e, acima de tudo, o nosso intelecto e forma de ver as coisas. Por um lado, temos uma História rica em guerras e descobrimentos que nos elevaram enquanto espécie mas, por outro, temos períodos negros e bastante explosivos que levaram à revolta de um povo em busca de uma liberdade e de uma democracia.

Estamos em 1986, mais propriamente a 26 de Abril, a data que ficou marcada pela explosão do reactor número quatro da central nuclear Chernobyl, perto da cidade de Pripyat, actual Ucrânia.

Antes do virar do século, muitos eventos marcaram esta chegada a um regime mais pacífico e mais justo para com o povo. Portugal estava para entrar na antiga CEE e a Europa estava, ainda, a reconstruir-se e a marcar uma posição face aos Estados Unidos em ascensão. E a 26 de Abril, o reactor explode e, com ele, ceifa muitas vidas das vilas próximas e provoca o pânico geral.

Partículas de material radioactivo deixam-se cair por acção da gravidade e uma densa nuvem negra carregada de material radioactivo, que se formou devido a um incêndio, espalha todo este material nocivo muito além de uma Alemanha ainda dividida dos tempos da Segunda Guerra Mundial.

Tudo parecia perdido: a cidade de Pripyat fora evacuada bem como muitas cidades e casas mais pequenas que se encontravam em volta, os animais e plantas que viviam nas proximidades caíam como cartas de um baralho e toda a floresta circundante perdeu a cor verde para adquirir o vermelho do sangue, o vermelho da dor.

Quase 25 anos depois, encontramo-nos a explorar o que é que aconteceu à fauna e flora que por lá permaneceu. E podia, caro leitor, pensar que nenhuma vida poderia ali existir numa atmosfera tão densa em radioactividade. Eu pensava igualmente o mesmo e apesar de o documentário não ser tão bom quanto esperava, ele mostra-nos um dos possíveis futuros da Humanidade para combater uma das armas que mais medo provoca ao mais intímo dos nossos seres: as armas nucleares.

É interessante notar que, apesar das condições adversas do meio, a Natureza pareceu reaver tudo aquilo que outrora perdeu para o Homem: os seus terrenos, a sua hegemonia, a sua cor verde que dá uma cor mais bonita a uma cidade cinzenta e abandonada.

Aqueles pedaços de estrôncio-90 e césio-137, que caíram após a explosão nas áreas em redor da central nuclear, começaram a fazer parte de um ecossistema, já por si, bastante danificado. A pouco e pouco, estes isótopos radioactivos, capazes de produzir radicais livres tóxicos para o nosso DNA, local onde está armazenada toda a nossa informação genética, começaram a fazer parte dos sistemas das plantas e animais que, dia após dia, colonizaram um espaço onde nunca se pensava poder existir vida.

E o mais importante de tudo é que, os isótopos radioactivos têm um comportamento muito semelhante a dois átomos essenciais a todos nós: o potássio e o cálcio. O césio-137 comporta-se como o potássio e integra a bomba de sódio e potássio, essencial às nossas células enquanto que o estrôncio-90 comporta-se como o cálcio e integra o nosso sistema ósseo, aquele que nos permite a mobilidade e a vivacidade e todas aquelas loucas experiências que vivemos no nosso dia-a-dia. E tudo isto foi provado por pequenos cientistas que, nas suas expedições, encontraram uns ossos de um lobo que, em vez de cálcio, estavam cheios de estrôncio-90 e, portanto, são radioactivos.

Mas não são apenas estes ossos. Estes ossos representam pouco mais de 1% de todo um espaço e de toda uma floresta que é radioactiva e bastante tóxica para todos aqueles que a ousam explorar e desmistificar todos os seus segredos. E devido ao facto de serem necessários 10 semi-vidas – uma semi-vida corresponde ao tempo necessário que um átomo precisa para perder 50% da sua radioactividade – e de estas, para o estrôncio e césio serem particularmente longas, leva a que este local seja um laboratório de investigação de enorme diversidade e maravilha capaz de dar resposta a muitas perguntas que assombram a temática das armas nucleares.

Fazendo o remate de tudo aquilo que já foi aqui comentado, o documentário faz menção a uma experiência em que foram utilizados dois grupos de ratos em que um, sendo o controlo, foi deixado numa zona sem radiação enquanto que o outro foi colocado na floresta vermelha, durante um determinado tempo, em contacto com radioactividade. Posteriormente, fizeram incidir sobre estes dois grupos vários flashes de radiação gama e chegaram a uma conclusão brilhante que poderá colocar em causa alguns princípios éticos.

Numa era em que buscamos, incessantementem, por fontes de energia renováveis e procuramos manter a Natureza tal como ela é e preservar o que ainda existe, colocam-se diversas questões sobre a temática das centrais nucleares e, mais ainda, devido ao mais recente evento em Fukushima.

A Humanidade representa uma espécie que aprendeu a viver na adversidade e soube lutar para sobreviver. Este documentário mostrou-me que há maneiras de contornar um eventual acidente nuclear e, mais ainda, que há esperança. A Natureza, que muitos de nós a vêem como o inimigo, conseguiu sobreviver e nós, eventualmente, também o conseguiremos fazer. Esta nossa grande Mãe apenas insistiu e foi à luta. E nós? Vamos ficar à espera?

About Jorge Pontes

Viajar é nascer e morrer a todo o instante, até porque é fácil apagar as pegadas. Difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.

Discussion

No comments yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Biblioteca

Calendário

May 2012
S M T W T F S
« Apr   Jun »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  
%d bloggers like this: