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Análise de Episódios, Fringe

Sobre Fringe 3×22 – The Day We Died (por António Guerra)


Eu sou o Alfa e o Omega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim – Apocalipse 22:13

A mitologia chinesa é frequentemente chamada pela forma como estabeleceu o início e o fim. O Yin e o Yang, o activo e o passivo, a luz e a escuridão. É neste conflituo que eles coexistem. A luz só existe porque, certo dia, deixou de existir. E, assim, a mudança de estado fez com que o mundo fosse dividido em luz e escuridão. A verdade só existe porque alguém, cansado com a sua vida, decidiu construir outra. Assim o mundo pode-se dividir em verdade e mentira. O inspirar só existe porquê o homem expira. E, para verem como o Yin e Yang se complementam, cada homem inspira o mesmo número de vezes que expira. E, entre estes paradoxos, entre estas verdades incontestáveis e mentiras permanentes, existem alguns seres que tentam respirar sempre mais uma vez, e outra, e outra, e mais outra. Para que a luz ainda brilhe antes do escuro as encobrir.

Antes de mais nada, e de começar a comentar este episódio de “Fringe”, fica um agradecimento ao meu amigo Jorge Pontes, que me convidou para o acompanhar neste final. Sim, foi uma pena para vocês, que têm de aturar tal marmanjo, mas foi uma honra para mim receber tal convite. E tinha de ficar este ponto bem assente. Pois, se este ficou aqui bem assente, o mesmo não se pode dizer de “Fringe”. Isto porque este episódio foi construído de forma bastante tremida, entrando em esforços desnecessários para dar sustentação a narrativas. Mas, como já diz bem o povo, quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

E este episódio criou-me essa sensação. Não que “Fringe” nasceu torto. Mas que, aqui, neste momento, a série criou uma fronteira. O que está daqui para trás não interessa. Pode ser modificado, até. O que está daqui para a frente é o que interessará. Depois deste final, “Fringe” terá muitas dificuldades em pegar no passado. Porque esse já não existe. E assim, entrando em paradoxos após paradoxos, “Fringe” caiu na própria armadilha que criou.

Pois, e começando pelo fim (ou pelo acontecimento mais passado), vejamos. Peter não mais existe. Pelo menos a série dá-nos a entender isso, com aquela frase dos Observer’s. “They don’t remember Peter”, refere ele, ao que o outro responde “How could day? He never exist”. E, a última vez que vi uma série a fazer isso chamou-se Battlestar Galactica e surgiu uma pomba no ecrã…e não correu muito bem. Mas, e se o Peter nunca existiu (ou deixou de existir), de todas as memórias ele deixará de existir. Sendo assim, alguém acredita que Olivia’s e Walter’s poderão ter tal conversa? E, assim sendo, e se o Peter não existe, de onde vem o conflituo do mundo? E o porquê de a Olivia dizer que temos de colocar as diferenças de lado? De onde vêm tal discurso, se o discurso do Peter deixou de existir? Percebem o problema criado? “Fringe”, ao tentar colocar carga dramática e um cliffhanger fantástico, deu maior o passo do que a perna. Mas isso foi algo constante neste episódio.

Continuemos a recuar no episódio, recontando-o do fim para o início. E chegamos à parte do paradoxo que o Walter cria. E aqui a minha frustração aumenta. Pois é uma forma de “Fringe” fazer o seu momento Pilatos. A entrada de paradoxos temporais em “Fringe” faz com que a série possa destruir parte do passado. Vejamos: a viagem ao dia do julgamento serviu essencialmente para isso, lavar as mãos de parte do problema que “Fringe” criou ao colocar as First People e estas a adivinhar o futuro. Ou seja, vocês podem muito bem defender a série em como ele é absolutamente alucinante, criando novos mundos e novas possibilidades, mas a mim chateia-me a ida a este lado. Porque se o Walter “atira” as peças para o passado, e referindo bem que não foi ele a criar a máquina (dá para perceber isso), quem construiu tal máquina? E, depois, se as peças foram dispersas para os dois universos, elas dividiram-se no wormhole? E, para acabar, onde estão todas as pessoas que também viajaram no wormhole? E a água que desapareceu com o rio? Será que foi o dilúvio de Noé? E, o pior, é que “Fringe” nunca conseguirá uma resposta decente a esta situação, porque um paradoxo não tem resposta. Nem certeza. O paradoxo vive das possibilidades. E estas “Fringe” nunca conseguirá cobrir por completo.

Assim, e com um paradoxo construído, “Fringe” noutra armadilha por ele criado. Andaremos sempre num tempo circular, à procura de sair da resolução do problema. Andaremos sempre a cair em tudo o que foi construído e ver que isso pode ser modificado do dia para a noite. E que tal o Peter viajar para 1985 e reparar o mal pela raiz? Esbateriam noutro paradoxo, de estarem duas pessoas com idades diferentes. Mas, mesmo assim, entre tudo, a série teria outra base, outro princípio. Perguntava-me um amigo, pouco antes de escrever estas linhas, se a confiança que tinha nos argumentistas era alguma. Respondi-lhe que nenhuma. Porque, apesar de como se dizia no twitter (e peço desculpa, mas já não me lembro que o referiu), apesar da ideia do episódio ser interessante, a forma como foi resolvido foi um caminho demasiado complexo para uma série que, apesar de tudo, tem mantido uma relação com a realidade bastante próxima.

Recuando mais um pouco, e porque longas linhas já possui esta review e só sobre 5 minutos escrevi, chegamos ao funeral da Olivia. E, aqui, mais um problema. Se o futuro quer ser mudado, o impacto do funeral é nulo. Não ocorrerá, porque o futuro é para ser mudado. Pouco mais a acrescentar tenho. Porque, e apesar de a cena ser bonita, nada mais há a acrescentar. E o funeral nada mais acrescentou à série. Serviu para por as pessoas vestidas de preto e pouco mais.

E, continuando para trás (e assim explico o porquê de ter começado a comentar o episódio do fim), vêm mais situações inócuas. Queinteressa que o mundo do Walternative tenha sido destruído, se agora isso pode ser tudo reparado? Que interessa que o nosso mundo tenha buracos a abrir, se tudo isso é para ser mudado? Que interessa que Broyles tenha um olho mais claro que outro, se isso não deverá acontecer? Que interessa que o Walter tenha sido preso, se isso pode ser revertido? Que interessa…

Pouco ou nada. Ou seja, de tudo o que no episódio nos deu, pouco interessa. Interessa o final, e um final cheio de buracos. Agora é pensar o que poderá vir. E, daqui, nasce uma hipótese: o universo onde coexistam ambos os universos seja um novo e, assim sendo, pode coexistir com este, onde se passou o episódio (o do dia do Julgamento Final) e tudo isto não ter sido tão insignificante como isso. Mas o sentimento que agora fica é que o universo cinzento, tal como a abertura, não é mais que uma reconstrução do azul com uns toques do vermelho. E, assim, de novo pergunto: para que serviu tanto mistério neste episódio?

“Fringe” atingiu o Yang. O fim. Mas não o soube manter coerente com o Yin, o princípio. E, se a série quer aventurar-se por terrenos movediços, é preciso saber fazê-lo. E, neste episódio, “Fringe” pareceu que não o soube. Agora é esperar. Sem grandes expectativas. Demasiadas dúvidas. E dúvidas se essas mesmas dúvidas terão respostas. Pois, esperemos, no meio da confusão nasce nova torre de Babel.

PS: Duas notas. Primeiro para a fantástica interpretação do John Noble. Noble tinha tido uma temporada não tão consistente como a segunda. Mas neste episódio roubo a cena sempre que estava presente. Segunda para referir que, para além da mudança da tonalidade da abertura, as palavras que a compõem também são outras. Podia-se ler “Estrutura do Caos”, “Rejuvenescimento celular”, “Biosuspenção” ou as que achei mais interessantes “Água” e “Esperança”. Tenhamos a última…

Por António Guerra

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