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Análise de Episódios, Fringe

Sobre Fringe 3×22 – The Day We Died (por Jorge Pontes)


Certas substâncias radioativas têm exatamente 50% de probabilidade de emitir radiação no período de uma hora. O estado dessa substância depois de uma hora iniciada a medição pode ser descrito através de uma equação matemática que expressa essa possibilidade dupla, este ser-ou-não-ser, este haver-ou-não-haver radiação.

Schrodinger sugeriu que puséssemos um gato vivo numa caixa fechada, e que a emissão radioativa desencadeasse um mecanismo que mataria o gato. Uma hora depois do gato posto ali, a equação matemática que descreve o experimento nos diz que o que há dentro da caixa é um gato metade morto, metade vivo. As duas possibilidades se equivalem, e só ao abrirmos a caixa, e constatarmos o que aconteceu, faremos com que uma delas se concretize e a outra se evapore. Enquanto a caixa não for aberta (enquanto o observador não interferir com o fenômeno observado) é preciso ficar lidando com o conceito de um gato meio-morto, meio-vivo.

texto truncado de FONTE

“Fringe” terminou há dois dias. “Fringe” concluiu aquela que foi a sua melhor temporada na globalidade. “Fringe” fechou uma porta de uma casa que andou a explorar durante 22 horas de puro e intenso suspense.

Se há coisa que “Fringe” consegue fazer (e muito bem) é jogar com todos aqueles factos científicos, todas aquelas leis físicas e toda aquela ciência e consegue, de forma peculiar, explicar o caso da semana. Pois bem, o paradoxo foi o escolhido desta semana para nos deixar a pensar, durante um Verão inteiro (!) sobre os eventos cataclísmicos deste final e daí ter começado esta minha review (que promete ser algo reflexiva) com um dos paradoxos mais conhecidos do mundo: o gato de Schrödinger.

Não quero, de forma alguma, ser hipócrita para convosco, os que me lêem há já 22 semanas. Eu gostei do episódio. Gostei. Achei que foi um final muito à frente e, de facto, surpreendeu-me. Mas, por outro lado, não deixo de estar triste porque, simplesmente, me deixou aquele sabor agridoce de um final que não surpreendeu tanto quanto a promo mostrava.

Começamos no sítio onde terminámos: com Peter no campo de batalha a lutar contra aquele que foi mais um wormhole naquele mundo futuro, naquele mundo que se despedaça a cada segundo, aquele mundo que, outrora, alojou dinossauros, alojou vidas, alojou biliões e biliões de histórias de pessoas que marcaram positiva ou negativamente aquele planeta único (as far as we know…) e tão bom que ajuda a raça humana a exceder, completamente, todos os seus horizontes.

Num futuro de 2026, Peter é casado com Olivia. Olivia cuida da sua sobrinha, Ella. Ella, crescidíssima e belíssima, pertence à Fringe Division, agora algo tão grande como no mundo vermelho. Encontramo-nos, então, à procura de um homem, Moreau, que, juntamente com mais alguns capangas, decidiram começar um grupo terrorista, the End of Dayers e lançar, naquele mundo já destruído, mais destruição. E quando tudo podia não surpreender, encontramos Walternate sentado numa cadeira, sob holograma, tão descansado e seguro sobre os seus ideais de destruição do mundo azul. E se aquele funeral podia ser de outra personagem, eis senão quando Walternate sai da carrinha onde estava e dispara uma bala em direcção à cabeça de Olivia, numa das cenas que mais apertado o meu coração me deixou.

Também Walter havia mudado. Numa altura entre 2011 e 2026, o “pai” de Peter havia sido julgado pelos seus “crimes” e colocado numa prisão onde sofrera um AVC. E se, por um lado, este julgamento era necessário, deixa-me a pensar sobre a capacidade que um pai tem em querer salvar aquele que é o seu rebento, se isso significar atravessar entre mundos e raptar o outro. E se, por outro lado, toda esta situação é digna de reflexão, não páro de pensar naquele Walter que, depois de ter pedido a Bell que lhe retirasse três bocados do seu cérebro, havia mudado tanto, fora encarcerado numa cela sem acesso àquilo que lhe fazia querer viver.

O que é certo é que Walter arranjou uma solução. Queria enviar a consciência de Peter para algures no passado para que pudesse avisar aqueles que se encontravam em guerra para destruir o mundo oposto, aquele mundo que, durante 26 anos, lhes tinha roubado tanta vida inocente por causa de uma pequena coisa chamada Amor.

É certo que todo o episódio foi um acumular de questões, uma hora que nos pôs realmente a pensar sobre a mitologia de “Fringe” que vimos e vivemos até à data. E se, por um lado, esperava um grande final, um final que correspondesse à enormíssima qualidade que Fringe nos mostrou durante as 22h que compõem a temporada, por outro queria algo que abrisse as portas para mais uma temporada (que será a última, indubitavelmente) cinco estrelas. E tal como no paradoxo de Shrödinger, sinto-me um gato meio-morto.

Ficámos num mundo azul sem Peter. Ficámos num mundo azul onde os Observers só queriam que Peter completasse a sua missão. Um mundo azul sem qualquer réstia de um homem que fazia uma única mulher feliz.

E se, por um lado, fiquei contente com aquilo que me foi mostrado, aquela sensação que a série conseguiu contradizer-se e quase, jogar à rua, aquilo que construiu em 3 temporadas, dói. Porque não é o facto de termos viajado no tempo…

É porque, segundo Walter, a máquina, em 2011 foi mal utilizada. E se assim é, quando regressámos com Peter e este desaparece, também Walternate, de súbito, aparece naquele lugar para pedir ajuda e tentar salvar o seu mundo. E agora pergunto-me: de que maneira foi a máquina mal utilizada?

Mas, ainda assim, há outra questão: o mundo vermelho desapareceu? Não temos qualquer evidência disso e mesmo com a passagem de Walternate não há como afirmar a sua destruição.

Outra: se Walter diz que a máquina foi mal utilizada, então, o mundo vermelho desapareceu e aquele futuro hipotético acontecerá, correcto? Mas, então, sem Peter, como a re-utilizarão para a usar de forma correcta?

Mais: aqueles wormholes… uma espécie de portal no espaço-tempo que permite viagens como as que fazemos em Doctor Who? E se assim é, para onde foram todas aquelas pessoas que caíram nestes wormholes? Para o nada ou para uma altura no passado ou futuro?

E ainda: sem Peter, toda aquela viagem à mente de Olivia pode não ter acontecido e, na próxima temporada, talvez veremos uma Olivia diferente. Aliás, aquele seu discurso após o Peter ter desaparecido foi como se lhe tivessem feito uma lavagem cerebral tão intensa que voltámos à personagem daquela primeira temporada…

E se a palavra desta semana, NO MORE, não podia ser mais característica deste final, pergunto-me: “nunca mais o quê?”. Nunca mais uma guerra dos mundos? Nunca mais Peter? Nunca mais uma solução para este problema da máquina? Nunca mais o quê?

Tantas questões, tantos porquês, tantos paradoxos… Realmente, a série consegue deixar o espectador a pensar sobre o caminho que terá a partir de agora… Será a construção de um novo mundo? “Fringe” não deixou qualquer pista sobre o que irá acontecer no futuro, não nos deixou algo com que nos agarrarmos. Só questões. Questões que nos levam a magicar em teorias, a magicar na próxima linha narrativa, a pensar no que farão num mundo sem Peter e como vão descalçar uma bota que me parece complicada em descalçar… Se “Fringe” me surpreendeu? Sim. Se “Fringe” podia ter feito melhor? Sim. Se “Fringe” podia não ter feito um caso semanal? Sim, podia. E se “Fringe” podia ter deixado alguma pista sobre a sua quarta temporada? Podia. E daí este sabor agridoce.

About Jorge Pontes

Viajar é nascer e morrer a todo o instante, até porque é fácil apagar as pegadas. Difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.

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