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Being Erica, Espelhos

Being Erica #10


Por momentos, senti-me como se não soubesse o quanto valia a minha vida.

Por momentos, estive sozinho, estive sem ninguém ao meu lado com o calor de um abraço, a doçura de beijo ou mesmo a ternura de umas simples palavras. Estive sozinho durante breves momentos que pareceram horas e horas de puro sofrimento como se me estivessem a espetar uma faca directamente no meu coração.

Com uns meros 27 anos, senti a minha mente decair como se tivesse 77. Com uns meros 27 anos, senti-me impotente para enfrentar todos os problemas que, a cada dia que passava, se acumulavam à minha frente. Com uns meros 27 anos, senti-me como se todos os meus esforços até aí não tivessem valido qualquer coisa.

Talvez uma das coisas que mais medo tive na minha vida tenha sido a solidão. Não aqueles meros insectos de que toda a gente tem medo. Um medo a sério. Um medo que me fazia tremer sempre que pensava nisso.

Este medo meu esteve presente em todos os momentos da minha vida. Esteve presente, sempre, momentos antes de adormecer sempre que olhava aquele escuro que envolvia o meu quarto e a mim próprio. Sempre tive medo do escuro por uma simples razão: com ele eu era aquilo que verdadeiramente era. O escuro revelava-me todas as verdades da minha vida, todos os erros que cometi, todas as faltas que cometi para com os meus amigos e família. Para além disso, todos os dias me fazia sentir só. E era disso que tinha medo. Às vezes, cansava-me tanto durante o dia só para não ter de ouvir o escuro a revelar-me tudo aquilo que já sabia e que tentava esconder.

Com uns meros 27 anos, fui engolido pelo medo. Fui engolido e nunca digerido como se estivesse a reviver, a cada minuto que passava, tudo aquilo que mais me fazia arrepender.

Com uns meros 27 anos, disse adeus.

A carta ensanguentada, que nem introdução nem conclusão tinha, jaz ao lado de um rapaz de nome desconhecido que morrera de olhos abertos. Tal como muitos, hoje em dia, o medo corrói o ser humano de dentro para fora como um vírus ataca um computador. Primeiro, começa por nos afastar de todos aqueles que mais gostamos, depois deixa-nos a matutar tanta vez sobre os nossos arrependimentos até que um dia não aguentamos e cometemos aquilo que o rapaz que acima referi cometera.

Será que vale a pena viver no medo? Será que vale a pena viver como se o passado fosse o nosso presente e o nosso futuro? Será que todos aqueles fantasmas valem aquilo que nós lhe estamos a atribuir só para entrarem na nossa cabeça e destruirem todos aqueles alicerces que ao longo da nossa vida fomos construindo?

E a verdadeira questão até nem é essa. Será que somos (e seremos) capazes de destruir todas aquelas correntes de ferro inquebráveis que não nos deixam viver a vida ao máximo? Será que somos meros sacos de pancada e sofrimento?

É viver cada dia como se o que estivesse para trás não tivesse sido um desperdício. É viver como se tudo aquilo que somos hoje é fruto de erros que nos fizeram crescer e entender situações que, se não fosse isso, hoje não entenderíamos. É saber viver com aquilo que se viveu, com aquilo que se tem e com as ambições de uma vida melhor no futuro.

Afinal, o ser humano é feito de ambições e se não fosse isso, a Terra hoje não seria o que era e, mais ainda, não seríamos quem somos hoje e quem seremos amanhã.

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About Jorge Pontes

Viajar é nascer e morrer a todo o instante, até porque é fácil apagar as pegadas. Difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.

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