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Being Erica, Espelhos

Being Erica #9


Carlos era um rapaz de 19 anos. A sua vida, à excepção de algumas saídas com os seus amigos, baseava-se numa única coisa: estudar. Dizia ele que era feliz. Os seus amigos bem tentavam demovê-lo de um objectivo que, para muitos, é utópico. E por mais vezes que lhe diziam para deixar de estudar tanto, mais Carlos fazia o contrário.

Certo dia, a caminho da Universidade, entrou num autocarro, tal como fazia durante toda a semana. Sentou-se, mais ou menos, a meio do autocarro e, logo atrás de si, vinha uma bela rapariga morena, com cabelo castanho pelos ombros escadeado e uns olhos mágicos cor de avelã que se sentou ao seu lado. Carlos, mesmo antes do autocarro partir, disse de si para consigo:

“Tenho de conversar com ela”.

Timidamente e a muito custo, o destino arrancou-lhe da boca um olá. A rapariga, vendo-o embaraçado, respondeu com um sorriso que deixou Carlos bem mais calmo.

Durante os 10 minutos de viagem, Carlos não queria acreditar nas maravilhas que aquela morena lhe contava. O seu coração queria conhecê-la melhor, queria dizer “és a minha alma gémea”. E sim, o Destino sabia que Crlos havia encontrado aquela pessoa que o deixava completo. Quase a chegar à paragem, a rapariga vira-se para Carlos e diz-lhe:

“Carlos, quero desafiar-te. Responde-me: confias em mim?”

Responde-lhe: “Com a minha vida.”

Diz-lhe, então: “Quando pararmos, vais sair deste autocarro e seguir o teu caminho. Não deves olhar para trás e, muito menos, para mim. Estamos entendidos?”

Carlos pergunta: “Mas porquê? Fiz-te algo de mal?”

A morena responde-lhe, finalmente: “Se confias em mim, como dizes, então farás este meu único pedido”.

Carlos, ao abrir das portas do autocarro, fez o que aquela rapariga disse. No entanto, e como o Destino sabia que o amor entre almas gémeas é algo tão ou mais poderoso que a divindade em que nós acreditamos, fez Carlos olhar para trás a apenas 10 metros da paragem onde havia saído. E desde esse dia, nunca mais viu aquela rapariga morena, com cabelo castanho pelos ombros escadeado e uns olhos mágicos cor de avelã que um dia se havia sentado a seu lado.

Muito procurou ele, durante os seus 82 anos de vida, mas nunca a encontrou. Morreu, infeliz, porque no dia em que havia encontrado a alma gémea, cometeu um erro e não cumpriu o pedido que lhe tinha sido feito. Nunca soube que havia sido o Destino a pregar-lhe tal partida. Afinal, nem mesmo o Destino consegue tolerar um amor tão perfeito quanto o das verdadeiras almas gémeas. Afinal, Carlos, que morrera infeliz, tinha, um dia, experimentado a verdadeira felicidade.

Foi efémera, é certo, mas, nos momentos últimos da sua morte, sorriu e, à medida que expirava, aconchegava, no seu coração, a imagem daquela rapariga morena, com cabelo castanho pelos ombros escadeado e uns olhos mágicos cor de avelã que um dia se havia sentado a seu lado.

Tal como Carlos fez durante toda a sua vida, também nós, humanos, passamos uma vida inteira à procura daquele amor que nos dá a verdadeira felicidade.

Mas, tal como Carlos, mesmo que não estejamos à procura daquela pessoa com quem partilhar todo o nosso dia-a-dia, todas as nossas experiências, e, sobretudo, o nosso passado com quem temos tanto a aprender, todos aqueles dias passados com os amigos que nos fazem mais feliz e que nos colocam a sorrir como nunca tínhamos sorrido na vida, é sem dúvida, uma manifestação mais pequena da felicidade.

Porque não é quem está ao nosso lado que define se somos melhores ou piores namorados ou namoradas, porque não é ter alguém ao nosso lado que vai fazer de nós melhores que os outros, porque não é ter alguém com quem partilhar experiências se, passado algum tempo, todo este mundo a dois parece cinzento… O que realmente interessa é saber se somos amados por aqueles com quem nos damos, todos os dias da nossa vida. E se formos realmente amados, e se nos sentirmos, relamente, capazes de enfrentar tudo e todos por mais escuro e negro que o futuro pareça, temos uma felicidade a que nos agarrar e uma felicidade que nos leva tão longe quanto estivermos dispostos a ir.

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About Jorge Pontes

Viajar é nascer e morrer a todo o instante, até porque é fácil apagar as pegadas. Difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.

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